sexta-feira, 19 de abril de 2013

Diga aí, amigo

“E como é que você veio pro mundo?”, me perguntou a vidente. Pensei “pelada”, mas a resposta era “sozinha”. E essa foi apenas uma tentativa de me fazer perceber que o ideal é a gente se acostumar a viver sem a dependência de alguém. Mas nessa filosofia, a vidente esqueceu que quem me carregou durante 9 meses foi uma pessoa, a famosa minha mãe. Eu nasci sozinha, mas nasci fruto de outro ser. E dependente.

Mas a vidente se referia, no caso, àquela dependência de alguém que a gente pode escolher. Que a gente pode apagar. Que a gente não precisa ter um vínculo pra vida toda.

Recentemente pensei nesse dia da vidente, que me dizia um milhão de coisas que podiam ser resumidas em “não deposite suas emoções pra sempre nas entranhas de um ser”. Pensei e concluí que solidão não é “estar”, é simplesmente “ser”. Porque, no fundo, todos têm um pensamento egoísta. Por mais altruísta que uma pessoa possa ser, seu foco é sempre sua própria felicidade. Pensamento sozinho, mesmo que, para concluí-lo, as esperanças sejam depositadas em outra pessoa. Todo ser humano vive a vida à procura da bosta de felicidade sem sequer saber qual a definição dessa palavra, qual o real sentimento que tal palavra aplicada à realidade pode causar. Ninguém é feliz. Felicidade não é “ser”, é simplesmente “estar”. E na concepção do mundo imbecil que vivo, estar feliz remete automaticamente a uma vida que não seja de solidão. E deve ser verdade.

2013. Ano em que eu depositei todas as esperanças em uma mudança. E o que mudou em mim não tem a menor importância para os outros, próximos. Aparentemente todo mundo resolveu buscar a felicidade (seja lá o que ela for) e aparentemente, para isso, foi preciso “cortar” algumas pessoas. Cortar da vida mesmo. Temporária ou definitivamente. E nessa de reformulação de vidas alheias, tenho me sentido a pessoa mais sozinha do mundo. Enquanto todo mundo tá tentando fazer com que a vida melhore, eu me sinto descartada por amigos (ou pelo menos aqueles que eu julgava serem amigos) que resolveram, em atitudes claras, deixar exposto algo como “Fica aí enquanto eu estarei feliz. Quando eu estiver triste e na bosta de novo, você volta.”.

Que isso não pareça drama, mas nos dias que tenho crises por algum motivo banal, como qualquer outro ser humano normal pode ter, simplesmente não me sinto confortável de ligar para NINGUÉM e pedir um conselho, uma palavra de conforto ou de apenas dizer oi, pra tirar a sensação de solidão. Não tenho mais isso. Não existe mais nenhum ponto de paz.

Essa é uma crise. Mas não é por um motivo banal. É um alerta. Acho que cheguei naquele ponto que todo mundo chega um dia, sabe? De renovar os ciclos? De quebrar os elos?

Nunca fui o tipo de pessoa que vai atrás pra saber se tá tudo bem. Mas sempre fui o tipo que deixa claro os braços abertos para quaisquer desabafos. O tipo que tenta amparar se não estiver tudo bem.  Resolvi mudar esse jeito de ser por reconhecer que as pessoas se cansam de ir atrás sempre. Mudei. Fui atrás e... esse texto aconteceu.

Sozinha, no fim das contas. Os amigos que vivem a vida a dois sempre gritam quando algo dá errado e quando voltam a ser sozinhos. Que gritem de felicidade, pra sempre, agora. Porque a estrutura solitária cedeu e o amparo espatifou-se no chão.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Desilusões recicláveis



Às vezes é melhor a gente substituir. Dar importância pra algo que é mais relevante naquele momento. Se desprender do passado de história que não deu certo.

É melhor ir além daquilo que parecia concreto mas não passava de fantasia. Daquilo que não teve esforço pois já estava construído, sem percebemos, devido à convivência.

Pessoas novas que nos enchem de ar puro novamente. Ar que entra. Sai. Entra. Sai. Efêmero. Passageiro. Como eu. Como você. Como todo mundo. Numa rotação constante. Que assim a gente vive. De substituições nem sempre bem sucedidas.

Um desilusão amorosa. Duas. Três. Dez. E você vê o amor da sua vida indo embora, seguindo outro caminho. E segue a direção oposta por orgulho. E tenta ser feliz. E substitui. E ocupa a ausência com pessoas tão legais. Que valem tão a pena. Mas que deixamos escapar... como o nosso amor da vida nos deixou... Afinal, eu era o amor da vida do amor da minha vida?

Às vezes nossos sentimentos viram eterna tentativa. Às vezes nossos sentimentos viram objeto. E a gente recicla e faz renascer imperfeito, mas especial. Faz renascer singular.

Essa é a constância. Cabe aos que tem o amor, segurá-lo. Passar por cima de erros, remorsos e rancores. Cabe aos que viram o amor indo embora entrar na constância. Na vida triste e feliz. Chata e divertida. Bipolar. Todo mundo oscila, mas o que prevalece é sempre o que é o mais forte. Mesmo que o mais forte seja a fraqueza de desistir.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Oitocentas e trinta e cinco palavras para pedir três letras



Comecei 2013 mais perdida do que há 5 anos. Me sentindo burra, sem direção, sem saber se fiz sequer uma escolha certa.

Formada. Me sentindo velha. Muito longe de onde de fato eu gostaria de estar. E onde eu gostaria de estar? Não sei.

Comecei o ano confusa. Pensando em fazer outra faculdade, outro curso, outra coisa da vida. Pensando em viajar com todas as economias de estagiária que juntei. Pensando que não me encaixo em nada. Que não sei fazer absolutamente nada. Tipo deprimida. Tipo de saco cheio de nada.

O ano começou e eu ainda estava desacreditada do amor. Ainda estou. Pra piorar, aquilo que me deixava mal, mas me fazia ter inspiração, passou. Não tenho mais nada. Não sinto mais nada. E o novo tampouco me interessa. Acho chato, desinteressante, tedioso. E às vezes só quero alguém pra conversar. Mas as pessoas estão sempre tão focadas em seus problemas infinitos que não me atrevo a pedir 10 minutos de conversa. Nem 5. Nem um. Fico me sufocando. Não escrevo mais com tanta frequência. Então me sufoco. E as pessoas simplesmente não se importam.

Mas aí começou o ano e pensei  “acho que ser adulto é isso aí. Cada um se fecha no seu mundo e cuida da sua vida mesquinha.”. E aí pensei “acho que não tenho a mentalidade de uma pessoa adulta.”. E fiquei triste com a realidade que me assolou. Não tenho mesmo. E nesse começo de ano pensei tanto no por que as pessoas tem que ser sérias em determinadas fases da vida. Na verdade, pensei... como de fato as pessoas são felizes? Tenho certeza que se uma pessoa desejar rolar na grama seminua e de fato o fizer, será muito mais feliz naquele momento do que se só pensar “Eu gostaria de fazer isso. Mas sou adulta”. Foda-se.

Na verdade eu já perdi o fio da meada no texto. E na verdade desde o começo dele eu nem sabia do que estava falando. E é assim que começou o meu ano. Confusão. Na cabeça. Fica tranquilo se você ta lendo e achando que é com você. Dessa vez é comigo, viu, umbigo do mundo?

Ninguém vai ler mesmo. Espero que ninguém leia. Vão achar que tô louca ou deprimida e vão vir querer que eu me abra. E eu não me abro. E eu já disse no texto que tô deprimida, mas não tô. Pelo menos ainda tomo banho todos os dias. Acho que é porque tenho mania de higiene pessoal. E eu também disse no texto que gostaria de conversar, mas agora não gostaria mais. Tô contraditória.

Tô regredindo. Eu sei. Mas se um dia eu ganhar muito dinheiro, tipo se um dia eu resolver jogar na mega sena de novo, vou escrever o que eu quiser aqui e vão ter vários comentários de interesseiros concordando com minhas loucuras. E eu vou ajudar animais, idosos e crianças e pessoas com deficiência e vou cagar pro resto do mundo. Acho que é por isso que não ganho na mega sena. Deus não dá dinheiro pra quem diz que vai “cagar” pro mundo. Ou talvez porque eu nunca jogo. Ou talvez porque às vezes eu nem acredito em Deus. Ou talvez porque eu vivo dizendo que estou pouco me fodendo pra dinheiro. E de fato estou.

Enfim.. o ano começou e eu não tenho mais uma pessoa pra chamar de “ponto de paz”. Começou amargo. Eu fiquei tão amarga que estou odiando seres humanos. Eu já reclamei de egoísmo/egocentrismo no texto? É. As pessoas são.

Mas acima de toda essa amargura, o ano começou pra todo mundo com uma expectativa de mudança (como em todos os outros anos). E comigo não foi diferente. E eu, de verdade, fechei os olhos na virada enquanto os fogos que odeio coloriam o céu. E pedi com muita sinceridade e fé, pela primeira vez na minha vida, paz. E pedi a paz sem que, pra tê-la, eu precise me afastar das pessoas e viver no limbo da minha vida. Eu pedi uma paz nas relações familiares, rodas de amizade, ciclos amorosos. Pedi sabendo que no fundo é impossível ter paz em 365 dias do ano. Mas se ela vir, tá em minhas mãos transformá-la em guerra ou deixá-la como está.  Deixa eu acreditar que a paz é uma escolha minha e que é possível tê-la. Mesmo que já tenha chegado o carnaval sem alegria e sem a paz junto.  Eu continuo acreditando que a calmaria do espírito, quando chegar, vai me dar foco. Me deixar menos perdida. Me fazer tomar, com calma, a decisão mais importante da minha vida.

Talvez o ano só comece mesmo depois do carnaval. Que seja verdade. Eu, que acreditei com tanta força numa mudança em 2013, fico na esperança e expectativa que, depois da quarta-feira de cinzas, o meu ano novo venha com a fina chuva que muitas vezes insiste em cair. E que a cidade volte a ser caos. E que minha cabeça volte a ser paz.

sábado, 17 de novembro de 2012

Veio me falando da sua vida amorosa esplendida como se isso bastasse para a tal felicidade plena que viveu procurando. Com o sorriso no rosto, veio esbanjar e vomitar seu estado de felicidade, sem sequer imaginar que, alguns meses depois, estaria vomitando sua amargura e tripas. Esperando ouvir um “ele voltará”... mas ouvindo um “É assim. Acaba e recomeça de outro lugar”. Dava pra ver, na expressão dela, que a frase “seguir em frente” lhe dava náusea ou coisa parecida. Por mais que ouvisse dos amores nunca eternos, de paixões efêmeras, de encantamento pelo novo, ela parecia estar presa na suposta felicidade perdida em sua cabeça. Negava o fim, cercava-se de seus próprios fantasmas até definhar. Até morrer espalhando suas sementes e decepções pelo chão. Até dar-se conta de que todo o sentimento que existia ali dentro dela valia mais que um sussurro doloroso de adeus. Então, veio me falando de como o amor era feio. E que ele estragava. E que ele não existia. Veio me falando de amor próprio, como se em uma atitude egoísta todo o sofrimento se acabasse. E acabou. Não pela atitude egoísta, mas pelo tempo que fez vir o novo.  E que fez nascer da semente algo que atraísse. Algo bonito e diferente, com aroma marcante o suficiente para se sobrepor ao cheiro do passado. E assim se fez a nova vida da velha pessoa que veio me falando de desapego e alegria. Que veio se apegando cada vez mais à vida. Que veio se esquecendo que o ciclo continua, sem fim até o fim. E que ela já estava apaixonada de novo, pronta pra vir me falar das dores do fim e pronta pra vir me falar da felicidade pelo novo e pronto para ver o velho ciclo eterno enquanto durou. Eterno enquanto dura. Eterno como a vida. Dura. Dura.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Bem do jeito que você queria. Nada de sentimentos sintéticos ou desvio de olhares. Entrega. A entrega da maneira mais confusa e certa. E a vontade do momento gritando mais alto que o pensamento fixo de meses cozinhando na cabeça. “Por você de novo não.”. De novo, sim.

Sem vinho e luz de velas. Só cerveja e a luz da rua atravessando a janela da sala, alaranjando o meu rosto que você insiste em tocar. Uma música qualquer, um movimento qualquer. Um toque de lábios com a suavidade da explosão de uma erupção vulcânica. Queimando tudo. Devastando tudo. Uma explosão que lentamente se transforma em um magnífico caos. Tudo o que encobrimos com nossas atordoadas vidas, com medo de que doesse. E doeu mesmo assim. A dor queimou e agora foi queimada. Tudo sem a menor explicação.

O abraço de outrora veio com tanto sentimento dessa vez, que fiquei com medo de te perder assim, de repente, como fizemos tantas outras vezes. No plural. Tudo no plural. Não solto. Não solto. Soltei. Tenho sede. Te bebo. Soltei. Sei o que te espera depois dessa noite. Não posso te prender. Não posso me prender. Não posso. Não posso. Você pode?

Agora é cedo e os pássaros já cantam pro sol do dia frio e sem uma nuvem sequer no céu. Mas é tarde. Pra voltar atrás. Pra esquecer. Pra me esquecer. Pra te esquecer. Agora é isso. Te olho com meu sorriso mais sincero. Te rio de olhos fechados. Penso “merda”. Penso “medo”. E você não pensa nada porque tá dormindo, do meu lado, sem sequer imaginar o quanto mexeu dessa vez. E o quanto o meu não-esforço virou ao contrário dessa vez.

Não sei quantas vezes pedi por alguém que encaixasse. Por alguém que entendesse. Por alguém que nem precisasse perguntar. Uma pessoa certa e errada de novo, pra eu tentar consertar de novo, pra me consertar de novo. Minha sina, minha mania. Uma pessoa que não me desse o mundo sabendo do meu pavor pela grandeza. Me desse o singelo, o simples, o interessante, o diferente. Que me fizesse vomitar amor mesmo sem dizer uma palavra. Que soubesse que eu travo com palavras sinceras ditas de dentro pra fora. E que entendesse, e que captasse. E então você...

Acho que tô sentindo aqui dentro o que você nunca acreditou que eu fosse sentir de novo por alguém. E acho que é por você.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Bêbada. Seu olhar no meu. Uma dose. Fica um pouco mais. O erro do sorriso ousado. A ousadia da gargalhada cheia de sentimento. O toque quase sem querer. Fica um pouco mais. Já é de manhã mas o sol não tá aqui ainda. Espera ele aparecer. Espera ele iluminar seus olhos cor de madeira com verniz. Brilham tanto. Deixa esse abraço demorar um pouco mais. Deixa eu me demorar nesse instante. Fica um pouco mais. Ainda não deu pra te tirar daqui. Outra dose. Não precisa ouvir o que digo. Não precisa me ouvir cantando alto e tão desafinado, batendo as mãos na mesa só pra encontrar um ritmo que abafe a sensação desesperadora de bem estar que você me causa. Tentando fazer a euforia se esvair pelas mãos inquietas. Não. Só deixa esse momento de olhares se cruzando estagnar. Deixa esse paradoxo de sentimentos existir sem que o que é verdadeiro caia na contradição.

Andamos intocáveis. Andamos se rumo. Não queremos rumos. Estamos assim, exatamente como queríamos. Não. Não vai. Fica um pouco mais. Toma outra dose. Toma esse abraço. Toma esse beijo. Me toma pra você. Deixa a brincadeira da insegurança começar de novo. Deixa a gente recomeçar o que nunca começou. Olha como eu danço toda contida quando você observa. Olha você fingindo que não vê. Deixa o contra fluxo nos levar ao choque. Fica um pouco mais. Me dá um conselho bonito que não vou usar. Me deixa teimar com sua roupa. Me deixa puxar sua roupa. Não me deixa. Alucinada. Me sacode. Me acorda. Me dá seu ombro. Diz que amanhã vai ser bonito se a gente olhar pra aquela direção onde o sol teima em nunca aparecer. Diz que amanhã vai ser diferente. Mas fica um pouco mais. E leva de mim os outros que engendrei, e os outros que de fato existiram em mim, na tentativa de te encontrar. Na vã tentativa de fingir te perder.

Fica nesses rostos. Fica nesses outros. Fica nessa vida de a gente se encontrar pra uma dose. Pra gente se perder na gargalhada. Pra gente se soltar de novo. Que tudo na minha noite é você. Que tudo na minha vida é você. Que tudo no meu exagero é você ficar um pouco mais. Mais uma dose e te deixo em paz. Mais um cigarro e você pode ir com o gosto amargo na boca. O sol nasceu no dia nublado e você sequer notou que a claridade sem brilho ofuscou minha timidez, dessa vez. Aproveita e me ouve. Aproveita e fica.